mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "liga internacional das mulheres inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres so séc. xvii, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a mónica. mas são só a sua caricatura. esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. pode-se dizer que mónica trabalha de sol a sol.
de facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
a poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. o amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
isso obriga mónica a observar uma disciplina [muito] severa....
Sophia de Mello Breyner in Contos Exemplares
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
reboot
apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação,
e nunca a minhas mãos ficam vazias
Sophia de Mello Breyner
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação,
e nunca a minhas mãos ficam vazias
Sophia de Mello Breyner
quinta-feira, 2 de julho de 2009
segunda-feira, 22 de junho de 2009
inocência [inédito]
as imagens eram próximas,
como que coladas sobre os olhos:
o que nos dava um rosto justo e liso.
os gestos, circulavam sem choques nem ruído,
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
como que coladas sobre os olhos:
o que nos dava um rosto justo e liso.
os gestos, circulavam sem choques nem ruído,
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
segunda-feira, 18 de maio de 2009
repetido
terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa
Sophia de Mello Breyner
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa
Sophia de Mello Breyner
domingo, 26 de abril de 2009
porque
porque os outros se mascaram mas tu não
porque os outros usam a virtude
para comprar o que não tem perdão
porque os outros têm medo mas tu não
porque os outros são os túmulos caiados
onde germina calada a podridão
porque os outros se calam mas tu não
porque os outros se compram e se vendem
e os seus gestos dão sempre dividendo
porque os outros são hábeis mas tu não
porque os outros vão à sombra dos abrigos
e tu vais de mãos dadas com os perigos
porque os outros calculam mas tu não
Sophia Mello Breyner
porque os outros usam a virtude
para comprar o que não tem perdão
porque os outros têm medo mas tu não
porque os outros são os túmulos caiados
onde germina calada a podridão
porque os outros se calam mas tu não
porque os outros se compram e se vendem
e os seus gestos dão sempre dividendo
porque os outros são hábeis mas tu não
porque os outros vão à sombra dos abrigos
e tu vais de mãos dadas com os perigos
porque os outros calculam mas tu não
Sophia Mello Breyner
Etiquetas:
Poesia,
Recados,
Sophia de Mello Breyner
sábado, 20 de dezembro de 2008
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
Sophia de Mello Breyner
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
Sophia de Mello Breyner
Etiquetas:
Confessions,
Poesia,
Sophia de Mello Breyner
Renascer
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner
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