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sexta-feira, 5 de junho de 2009

dizem que a paixão o conheceu

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura,
nenhuma alegria,
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

quarta-feira, 3 de junho de 2009

eterna espera

...e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta...

dantes escrevia cartas,
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua

assim envelheci: acreditando que algum homem ao passar se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar)

um dia houve que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta.
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

quinta-feira, 12 de março de 2009

vem

visita-me enquanto não envelheço,
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores.
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces,
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos,
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne.
a paixão derrama-se quando [a] tua ausência se prende às veias,
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro,

perco-te no sono das marítimas paisagens,
estas feridas de barro e quartzo,
[com] os olhos escancarados para a infindável água,
vem

com teu sabor de açúcar queimado,
em redor da noite,
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

sábado, 17 de janeiro de 2009

moonless nights

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão,
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo a paciência,
o amor, o abandono das palavras, o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto